sábado, 5 de outubro de 2013

Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola...



"Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto. No táxi, no trânsito, no banco, só me chamam de senhora. E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”. Não estou achando envelhecer esse horror todo. Até agora. Mas a pressão é grande. Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia.
O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta. Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso, de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo, incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre. É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa. É um queijo podre de chique. Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria. O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada.

Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola. Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria. Estou me tornando uma iguaria. Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados. Não sou mais um queijo Minas Frescal, não sou mais uma Ricota, não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso. Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola." 



segunda-feira, 23 de setembro de 2013



"Eu conheci o lugar mais escuro, frio e úmido. Eu transitei pelo que havia de mais imundo no mundo. Eu fui até ao buraco negro onde vivem os fantasmas raivosos. Eu conheci os gritos da dor da angústia, calada. Eu mergulhei sem saber nadar e perdi o fôlego entregue a uma quase morte. Eu estava quase desistindo, dilacerada...

Eu vi todas as cores na superfície da água. Um céu dançava e imitava um arco-íris molhado. Meus olhos ardiam de sal e minha respiração estava congelada. Minha alma enrugara tal qual meus sonhos, mas as nuvens desenhavam um chamado.

Rabisquei na mente a minha retomada. E pude visualizar que havia ainda algo a percorrer nesta existência e que era longa a estrada. Eu desisti das desistências e da necessidade de viver anestesiada. E a mesma dor que me lançou no abismo, me trouxe de volta, renovada.

Ergui bases mais sólidas, reconstruí meu novo olhar. Estive com todos os sentimentos desconcertados, esperando calmamente o seu lugar. O peito ainda ardia, mas a palavra em punho. Despejei minhas emoções tardias num choro infantil. E renasci como num parto de criança, inocente e pueril.

Hoje, meu rosto ainda mostra as cicatrizes. Fui tão intensa em tudo, vivi décadas infelizes. Deixei minha derrota para cuidar das minhas conquistas. A sombra assustada afastara-se com a luz. Por isso, hoje eu digo que tudo já deu certo.

Plantei o meu jardim onde tudo era deserto." (Marla de Queiroz)